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Gilberto Mariotti entrevista Erika Verzutti
22.10.2008
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TRIVIA – PARTE 1
Gilberto Mariotti entrevista Erika Verzutti
GM: Você estava me contando sobre o tema da exposição, “sobre amor”.
É como uma sobrevida?

EV: Sobre o “sobre”: em 1999 a tese do Tiago (Carneiro da Cunha), “For Real”, foi uma revelação definitiva. Ele defendia que não dá para conviver com “tema” como força condutora do trabalho, e que a arte caminha através da linguagem e da graciosidade. Para mim foi um entendimento bombástico de tão óbvio. Desde então os assuntos ou figuras que aparecem no trabalho são um presente a mais, como letra de música. O Tiago hoje em dia faz um trabalho cheio de temas super carregados, morte, sexo, violência. Acho que ele só conseguiu encontrar um jeito de lidar com esses assuntos no trabalho por ter percorrido o caminho contrário.  No meu caso, estou fazendo um cemitério de animais, um parque temático. E acho que isso só foi possível por causa da religião libertadora de que tema não enche a barriga do artista. Então é sobre amor, sim. Não depois do amor, antes. Talvez amor pelos animais como representação do amor humano, para ajudar a entender o humano.
 
   GM: “Desde então os assuntos ou figuras que aparecem no trabalho são um presente a mais, como letra de música”. Essa frase da sua resposta confirma a percepção que eu tenho tido do seu trabalho. Assuntos ou figuras que “aparecem” não são o assunto, mas sim a forma que estas figuras passam a assumir junto às outras. O “aparecem” condiz com minha idéia de que você escolhe estas figuras respeitando um fluxo corrente de imagens sem quebrá-lo. Estes assuntos ou figuras são um presente como letra de música, como algo adicional à música em si, como quando passamos a entender a letra depois de ouvir a música no rádio um par de vezes sem prestar muita atenção. O que me leva de novo ao seu gosto por uma escrita falada, como a do (João Carlos) Marinho. Parece que você espera pela palavra recortada e brilhante que “aparece” na conversação geral, no blábláblá do motorista de táxi (olha aí de novo) e a incorpora. Aliás, os trabalhos funcionam um tanto como uma armadilha para estas imagens, para estes animais… Puxa, falei demais e nem toquei no assunto “amor”.
 
EV: E às vezes é a letra que pesca a gente. Pensei em “Tarado” do Caetano (Veloso) com o Jorge Mautner, a letra é comoção imediata, depois a gente percebe guitarrinhas de luau embalantes, a gente quase junta tudo na música, mas não junta, sempre tem uma coisinha para descobrir. Eu seria muito feliz se conseguisse sempre trabalhar assim, material, figura, letra e música  (uma mexendo nos contornos da outra para sempre). Gostei muito que você falou em “respeitar o fluxo de imagens”. Em momentos raros desse troca-troca da forma com o assunto, é possível se sentir trabalhando numa onda caudalosa. O Waly Salomão falou que “o destino dos bons rios é transbordar”.  Minhas formas de partida - vasos, abacaxis, bichos de orelhas espigadas - deliram com a possibilidade da escultura crescer, abrir, florescer, se espalhar com vida própria e me atropelar. Mas não transbordo. O artista precisa voltar inteiro dessas corredeiras de imagens, para contar a história.
Sua comparação dessas buscas com meu amor pela “palavra falada recortada e brilhante” é um prato cheio para conversar. Gosto muito de ditongos crescentes, abertos como os vasos. O Marinho encontrou uma graciosidade tremenda escrevendo falas de crianças. Com o vocabulário reduzido da infância ele consegue montar estruturas precisas lindas, com o tal brilho que só um adulto vê. Comecei a ler Marinho aos 30 e virou uma companhia para minha procura do gesto bom e fácil, da fertilidade do aprendiz, do be-a-bá iluminado. E as escolhas dos assuntos das frases do Marinho, dançam valsa com as escolhas das palavras, ele repara em coisinhas corriqueiras, proustianas, invisíveis se não anotadas.
 
 GM: Outra associação que você faz e que me aparece como um valor no trabalho: a fertilidade e o brilho de quem aprendem. Em vários momentos é possível observar boas relações entre uns materiais que podem remeter ao universo escolar ou de uma prática artística iniciante, estes artigos de papelaria que ocupavam um lugar simbólico incontestável em algumas de nossas infâncias, e umas formas que ironicamente, eu acho, resvalam em questões pretensamente sérias. Digo ironicamente, não por achar que a ironia funcione no seu trabalho como objetivo ou estratégia principal (como é o caso do trabalho de tantos outros artistas que acompanho) mas porque é irônico como estes dois mundos reagem entre si quando do resultado final. Há uma troca interessante entre estas duas instâncias. É  difícil causar esta faísca sem cair em ironia pré-fabricada.  Ocupar o lugar de um agente inábil, ou ingênuo, talvez, mas no sentido de quem se coloca antes da descoberta, daquele que valoriza a experiência prática como algo disparador ou inaugural parece ser uma estratégia recorrente pra você.
 
EV: Já não sei se entendo o que é ironia, se ando protestando à toa contra ela. Tendo a associar ironia a deboche, paródia ou hipérbato, que não me agradam. Talvez eu não goste da ironia como gesto, me parece um trejeito facilitado. Fui tentar entender rápido o que é ironia, lendo um trecho qualquer do Memórias Póstumas (de Brás Cubas, Machado de Assis). Deu-me a impressão de que ironia ali é uma música de fundo, engraçadíssima, flutuando pelos rumos da história, levando o leitor a desconfiar de tudo. Se ironia é humor, respeito muito, humor é um sistema riquíssimo para filosofar. Se ironia é um gatilho para causar desconfiança, melhor ainda, então aceito que trabalho com ironia.
        “Ocupar o lugar de um agente inábil” vai de encontro a esta desconfiança: desconfiar da idéia que já nasce artística, aprovada. Cresci sob o teto da arte conceitual que incentiva(va) os artistas a fazer coisas assertivas. Outro dia brinquei que a Arte Conceitual é como o Antigo Testamento, ou a “Era da Lei”, um período inventado por Deus para ensinar aos homens como viver. Mas agora que estamos vivendo a “Era da Graça”, tendo aprendido a lição temos que administrar a liberdade total. “Ironicamente”, a liberdade é grande demais, opressora e paralisante. Vivendo feliz sob a constante de que o trabalho já nasce informado de que é um trabalho de arte, inventei para mim a função de desinformá-lo, ou me analfabetizar em gugu-dadás, como quem quer que trabalho-filho tenha uma boa infância, cresça forte e saudável.  Colocando-me na posição de aprendiz encontro uma posição política do que acredito que é um bom jeito de trabalhar. Mas a política veio através da prática, da busca ilusória pela fertilidade no trabalho. A virgindade dos materiais da prateleira da papelaria, dos lápis com cores que logo serão desordenadas, o viço dos papéis e pincéis novinhos, exalam fertilidade. E o senso comum no entendimento desses materiais como “materiais de arte” é uma avenida larga e arborizada na minha relação com quem vai ver o trabalho.
 
GM: Se até ironia pode virar trejeito, como evitar que o trabalho passe a funcionar como forma autômata, como estilo? Quando estávamos pensando o projeto para o CCSP, comecei a rascunhar um “trabalho da Erika” na sua frente, como uma estratégia para disparar o processo de criação, e sua reação foi a de se apropriar do que achava interessante ali e levá-lo adiante. Fui capaz de imaginá-lo por conhecer seus procedimentos? Por ter identificado um estilo? Talvez aquele não fosse realmente um trabalho da Erika antes do caminho que você deu a ele… Será que você se apropriou dele, como costuma fazer com toda conversa, e como se apropriou também de nossa conversa?

EV: Não sei se entendi bem o que deveria ser evitado. “forma autômata” é uma forma fora de controle? Frankenstein? Se falarmos sobre a  perda de controle sobre percepções e associações que o trabalho poderá ativar etc, estarei na ola do consenso vinde a mim. Ao mesmo tempo, cultivo métodos ilusórios de controle. A recorrência das formas espetadas, abacaxis, são uma anotação sobre minha vontade de que o trabalho cresça emancipado. Vontade de dar pistas de que o trabalho sabe que está aberto, sabe que sobre ele pousarão outros olhos, sabe que vai morar na casa de alguém, perto de um sofá, quem sabe numa reserva técnica enregelada. Esse e outros procedimentos são tentativas de controle ou de fazer um objeto consciente de suas possíveis aventuras. Acho que não era bem disso que você estava falando, mas está relacionado ao projeto para o CCSP, onde estamos tentando brincar com uma “consciência do cubo expositivo / base”, do mesmo jeito que no cemitério várias esculturas interagem com as bases, como é fácil de ver no Burro. No projeto para o CCSP, cuja proposta é interagir com a instituição, foi rápido escolher o café de garrafa térmica como tema, vindo da crença de que a neutralidade, não sei se é neutralidade a palavra, mas a pureza… já sei: a relevância da instituição cultural no funcionamento da arte é ilusória, e que o café é o que há de comum entre instituição, galeria, residência, banco, boteco… Acho que de uma forma ou de outra, defendo que a realidade está mais próxima do que é banal, mas isso é muito assunto.
Sobre o estilo: antes de receber esta sua pergunta, eu estava te escrevendo um e-mail a parte, chamado “a crise”. Falava sobre não me reconhecer em todos os trabalhos do Pet Cemetery. Ora, se a semente da idéia do Cemitério foi a vontade de poder desfilar estilos impunemente, arriscar, contradizer, enfeitar com a dedicação e liberdade que um parente escolhe cor e forma para um túmulo, por que agora o desconforto? Para esta exposição executei esculturas improváveis, formas que você não rabiscaria como meu trabalho, usando como parâmetros me aproximar de associações e materiais que me parecessem atraentes e me afastar o quanto possível da paródia, que é muito tentadora. Esses novos seres - como o São Francisco geométrico de madeira, ou o Avestruz, um tripé bastante masculino - surgiram de vontades marginais, sem contexto aparente dentro do “meu estilo” que entendo como “meu traço”. Se é uma aventura libertadora, é também uma ambição arriscada, de ser reconhecida pelo irreconhecível, dá uma insegurança inerente. Acho que nascemos sob o céu da arte-marca, da repetição que legitima a pesquisa do artista. Então parece que estou pesquisando um traço que incorpore o conjunto dos meus traços possíveis. E acho que tem bastante gente pesquisando isso. Você que fez rapidamente um rabisco com “meu estilo”, o que acha de tudo isso?
 Daí você falou em apropriação e pensei que essa coleção de traços/estilos possíveis contém coisas que eu gostaria de fazer (por causa do material, por exemplo) e provavelmente coisas que vi (ou ouvi, li) e que gostaria de fazer também, como um trabalho de fã. Fãs sempre produzem coisas: colagens, coleções, clubes, camisetas, álbuns. Então acho que parte da motivação de abraçar diversas possibilidades no trabalho vem dessa ansiedade de fã de arte. No Pet Cemetery encontrei um jeito muito prazeroso de lidar com essa fome de apropriação que você apontou, quando foram surgindo as esculturas colaborativas. Eu precisava de uma coisa esguia para espetar o Bull Head - que é um bronze batata-doce com chifres de mandioca, para fazê-lo parecer com uma daquelas caveiras de boi espetadas no sertão. Não conseguia imaginar coisa melhor que uma escultura de lata de concreto do Alexandre (da Cunha), então pedi a ele para fazer uma lata para Bull Head. Depois surgiram trabalhos que precisavam da ajuda do Efrain (Almeida), Tiago, Tonico (Lemos Auad), Leda (Catunda). Dentro da ambição de manter o trabalho aberto, atento, acho que a apropriação surge como um bônus.

GM: Aqui talvez fosse o momento em que discutíssemos mais especificamente os trabalhos desta exposição. Mas acho melhor não mais saber sobre eles por esta conversa. Só começar a vê-los, já que agora estão aí, piscando pra gente. Acima de tudo me fica a vontade de saber mais sobre esta idéia semente em que aquele sujeito ingênuo, de que falamos como possibilidade criativa, deu as caras cuidando da decoração de túmulo de parente. Sempre me interessou como o gosto “doméstico” é transposto para estas situações de pesar coletivo. Como ele funciona como uma cola estética para estas celebrações familiares, tornando familiares os ambientes mais fúnebres. E como esta justaposição de elementos que carregam a beleza mais reconhecível são articulados na apropriação destes ambientes, que afinal são públicos. Quem sabe aí esteja outra dimensão poderosa da nossa esfera pública, com que brinquei no texto para o CCSP…

EV: Sem reler seu texto do CCSP, revivo a sensação de que à primeira vista, nas primeiras linhas, não se parece um texto de artes plásticas (assim como as esculturas as vezes não parecem arte?). “Cafezinho” ficou  cheio de sonoridades domésticas e literárias que dão forma à informalidade do texto. As palavras curtas e imagens conhecidas, avizinham texto e trabalho, texto e leitor, trabalho e leitor, para em seguida convidar  todos a se distanciar. Esta manobra (in)formal é parecida com o jeito que penso nos trabalhos do CCSP e os outros. O cemitério abusa dessa “cola estética” como ponto de partida, tentando encontrar a “cola estética” mediadora do artista arte-vida, ou no meu caso como disse uma vez a Márcia (Fortes), atelier-vida. Você quer começar a falar dos trabalhos? Eu gostaria muito. Você viu o Burro?
 
GM: Vi o burro na foto. E por alguma razão tenho uma lembrança mais viva agora do desenho do Burro. Acho incrível que os desenhos dos trabalhos já prevejam algumas características físicas ou concretas dos objetos sem que funcionem apenas como projetos.
Mas do burro, gosto da idéia que cria um lugar de percepção para quem se relaciona com ele que parece mencionar com humor aquelas leituras de obra que nos ensinavam na escola, naquelas aulas em que o dedo do professor anda pelos quadros, montando uma narrativa com resposta certa.  O “olhar” perfaz um caminho cujo objetivo já está dado desde o início pelo rabo afixado. O que retira do trabalho a pretensão de uma resposta pronta. Para quem gosta de repisar a idéia de trabalho participativo, deve ser um tanto frustrante…

EV: Falei com o Elton (Verzutti) sobre isso, as esculturas ficaram parecidíssimas com os desenhos. Isso foi uma surpresa, já que me gabo de deixar o trabalho se modificar e se acidentar enquanto faço. Aqui vários acidentes estavam roteirizados, uma contradição lucrativa. Acho que a idéia de fazer uma fartura de esculturas ajudou, e fui produzindo quase tudo que tinha desenhado, pensando no (Alexandre) Herchkovitch que disse que só tem uma regra de trabalho: executar tudo o que desenha. 
Gostei muito dessa associação do rabo do burro com um percurso predefinido para olhar. Acho que é isso mesmo, uma manipulação anunciada que se auto destrói. Logo, é um trabalho participativo, repiso. Como não seria?


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