Exposições Passadas 2006
Hollyood Boulevard
Andy Warhol, Cindy Sherman, Douglas Gordon, Ed Rusha, Francesco Vezzoli, Jack Pierson, John Baldessari, John Waters, Julião Sarmento, Richard Prince, Vik Muniz
Vik Muniz
Bette Davis, 2004

Retratos de Diamante
Cópia fotográfica por oxidação de corantes
122 x 152 cm
Edição de 10 + 4 AP


Hollywood Boulevard
Curadoria Alexandre Melo

Andy Warhol, Cindy Sherman, Douglas Gordon, Ed Ruscha, Francesco Vezolli, Jack Pierson, John Baldessari, John Waters, Julião Sarmento, Richard Prince e Vik Muniz


A Galeria Fortes Vilaça tem o prazer de apresentar a exposição coletiva Hollywood Boulevard, que reúne pinturas, fotos e gravuras de um verdadeiro time de estrelas da cena contemporânea internacional.

Dentro da ampla arena de assuntos relacionados à Hollywood o curador português Alexandre Melo aponta alguns temas de seu interesse específico que nortearam a escolha dos trabalhos: os modelos de beleza, "glamour" e desejo elaborados e propagados a partir de Hollywood; o star-system ou indústria da fama; a inserção de uma gramática cinematográfica de produção de imagens nas artes visuais e uma geografia mítica em que Hollywood aparece como "um paraíso inventado, perdido, re-encontrado ou falsificado".

As duas fotografias de Cindy Sherman, Sem titulo da série Bus Riders, 1975/2005 mostram a própria artista vestida como personagens comuns que esperam um ônibus. Tanto a caracterização como a pose dos personagens sugere um híbrido de ficção e realidade. É como se imagem das pessoas nas ruas já refletissem uma estética do cinema e TV, como se a artista procurasse retratar, já na década de 70, uma espécie de realidade mediatizada.

Jack Pierson, John Baldessari e John Waters exploram o desenvolvimento da gramática cinematográfica nas artes visuais. Pierson é representado com dois trabalhos. Actress, 2000 é uma foto em que cada letra da palavra actress aparece escrita em uma tipologia diferente. Já na pintura Stardust #2,2001 um close-up cinematográfico é tratado no limite entre abstração e figuração. Em Sex and Crime,1996 Baldessari faz intervenções abstratas sobre figuras de detetives e mocinhas dos filme noir. O Cineasta e artista plástico John Waters, faz uma compilação de fotogramas icônicos selecionados de diversas fontes a partir de estoque infindável de imagens hollywoodianas - uma mina de imagens - que constitui o mais rico e vasto filão de abastecimento do imaginário humano no último século.

A geografia mítica de Hollywood aparece nas obras de Ed Ruscha, representante dos EUA na última Bienal de Veneza, e do artista português Julião Sarmento. Tanto Ruscha quanto Sarmento usam os nomes das ruas de Hollywood como elemento formal das obras.

A obra de Andy Warhol e sua persona pública são praticamente indissociáveis. O artista descobriu, tematizou e se aproveitou do star-system. A escolha de um auto-retrato do artista aponta nesta direção. Richard Prince também se apropria do aparato publicitário hollywoodiano utilizando fotos autografadas de atrizes como Katie Holmes e Neve Campbell em suas obras.

Outros destaques da mostra são as fotografias de Vik Muniz - uma Bette Davis feita de diamantes e a Múmia de Boris Karloff feita de caviar - e um bordado do Italiano Francesco Vezzoli, em que as imagens de Sônia Braga e Amália Rodrigues aparecem em lados opostos de um mesmo quadro.


Hollywood Boulevard, São Paulo, 2005
por Alexandre Melo


1. A aura de Hollywood consiste no capital simbólico correspondente ao poder de produzir, conservar e reproduzir um stock de imagens - uma mina de imagens - que constitui o mais rico e vasto filão de abastecimento do imaginário humano no último século. O modo hollywoodesco de produção de imagens contribuiu mais do que qualquer outra fonte, para a definição e evolução do modo, inédito na história do gênero humano, como os filhos e cidadãos do século XX construíram os seus quadros de percepção do real e de estruturação do desejo e da imaginação.

Ao falar de Hollywood falamos do modo de produção de imagens que - a partir do modelo clássico do cinema americano e através da sua expansão e revolução permanente, designadamente por meio da sua absorção e transformação por uma linguagem televisiva em vias de universalização - é a base material das mutações culturais de fundo designadas por expressões como a sociedade do espetáculo, o império das imagens, o triunfo do "star system", a generalização da mediatização imagética das relações humanas ou, ainda, a indissociabilidade ontológica entre a realidade e a ficção, introduzida e sustentada pelo novo regime televisual de vivência das imagens.

2. As obras selecionadas para a exposição "Hollywood Boulevard" relacionam-se de modo mais ou menos direto com aquilo que Hollywood invoca enquanto mito ou realidade.
Entre os tópicos mais relevantes para uma aproximação de conjunto às obras expostas destacamos:
- Os modelos de beleza, "glamour" e desejo elaborados e propagados a partir de Hollywood e o modo como eles influenciaram a experiência social da beleza e da sexualidade gerando, também distanciamentos e reações críticas, por vezes radicais.
- O "star system" e a idéia de "star" que, banalizada através da televisão e da música pop, se tornaram uma obsessão da vida social contemporânea.
- Uma nova gramática de produção de imagens que, tendo sido inventada pelo e para o cinema, é hoje uma referência maior para todas as outras artes e, nomeadamente, para as artes plásticas.
- Uma geografia mítica em que Hollywood ou Los Angeles, em geral, fazem as vezes de lugar utópico de um Paraíso inventado, perdido, re-encontrado ou falsificado.

3. A palavra "Boulevard" que completa o título da exposição, para além do seu sentido topológico literal - uma avenida de Los Angeles, com características peculiares - introduz uma dimensão nostálgica que pode ser relacionada com uma distancia cronológica e geográfica: um eco da Europa, de Paris do século XIX, do "flâneur" de Baudelaire e Benjamin. A expressão de uma nostalgia que, tendo começado por ser uma nostalgia em relação ao mundo antes do cinema, hoje começa já a ser uma nostalgia em relação ao mundo dos primórdios do cinema.